segunda-feira, 7 de abril de 2008

tvRAMA - 18

Os concursos da madrugada

Confesso que após o fim de Toca a Ganhar (madrugadas da TVI) acendeu-se em mim uma ténue chama de esperança. Seria o principio do fim deste género? Pura ilusão. Algumas semanas depois, a TVI voltou à carga com Sempre a Somar. Esta leva de concursos (não esquecendo Quando o Telefone Toca na SIC) é como as novidades: deixam de sê-lo ao fim de pouco tempo. De facto, tal constatação não é surpreendente uma vez que bem dissecado, o formato esgota-se em si próprio. Por mais passatempos que se inventem ou malabarismos que os apresentadores decidam fazer, a essência é, em si mesma, paupérrima. Agora, quando ao pouco apelo se junta o cansaço do telespectador, o late-night torna-se insuportável. Mas, quanto a isto, voltarei mais tarde.

tvRAMA - 17

O exercício da Memória

Depois de uma longa pausa, retomo a actividade deste blog para falar do programa comandado por Maria Elisa nas noites de domingo da RTP - Depois do Adeus. Partindo do princípio que a Memória não deve ser curta, o espaço de debate revisita alguns acontecimentos da nossa história recente, procurando mostrar a sua ainda pertinência nas actuais dinâmicas da sociedade portuguesa. Foi o caso da profética emissão sobre as cheias que inundaram Lisboa no final dos anos 60 ou do tema do programa de ontem, o fatídico incêndio do Chiado a 25 de Agosto de 1988.
Com um estilo sóbrio mas nunca distante, Maria Elisa é o cicerone que guia o espectador numa visita pelas salas e corredores desse museu que é Portugal. Por outro lado, a abordagem transversal dos temas ajuda, mesmo o mais desatento ou demarcado, a perceber o impacto causado na sociedade pelos acontecimentos evocados. Através de um leque diversificado de convidados torna-se possível não só melhor contextualizar as temáticas como dissecar os diferentes aspectos inerentes às mesmas.
A Memória de um povo é a sua História. Olvidá-la é quase que negar o que fomos e o que somos. Daí que para compreender esta entidade colectiva da qual fazemos parte, seja importante efectuar este exercício de revisitação, procurando nele uma parte de nós mesmos. Depois do Adeus parece-me um válido contributo.

sexta-feira, 7 de março de 2008

tvRAMA - 16

Notícias indiscriminadas

A recente vaga de crimes violentos em Portugal tem, como seria de esperar, feito eco na generalidade da imprensa, leia-se, escrita, falada e ouvida. Aumento efectivo da insegurança ou simples exagero, a verdade é que, por estes dias, cada acto do género é, quase indiscriminadamente, notícia.
Que o digam os espectadores que, como eu, acompanharam a edição de hoje do Jornal da Tarde (RTP). De uma só assentada foram duas as notícias envolvendo mortes e assassinatos, dispostas de tal forma que um cidadão mais incauto poderia julgar que o melhor seria começar a pensar duas vezes antes de sair de casa. Um dos casos envolvia um ajuste de contas com um empresário numa pequena aldeia, o outro, do mesmo género, tinha como "protagonistas" dois paquistaneses e envolvia ainda um comerciante chinês na zona das Laranjeiras.
As histórias e os locais não são o que mais interessa aqui, muito menos pretende-se desvalorizar os casos em questão. O que importa é informar com objectividade assuntos merecedores de tal e, francamente, evitar dar a sensação que se está a ser levado ao sabor de uma qualquer corrente, simultaneamente correndo o risco de ignorar o valor-notícia. Confesso que, no canal de serviço público, pareceu-me inusitado. É inegável que a temática está na ordem do dia. Contudo, basta abrir os jornais diários. Nas páginas destes, é tema todos os dias.

sábado, 1 de março de 2008

tvRAMA - 15

Corredor da mesmice

Na noite de quinta-feira, não assisti à estreia do novo programa de debate político da RTP, intitulado Corredor do Poder. Agora que tomei conhecimento das reacções ao formato, apetece-me dizer que já sabia da inutilidade da minha presença em frente ao ecrã do "primeiro canal" para acompanhar 50 minutos de um "enredo" já muito visto, logo, cansativo e desinteressante.
A minha falta de curiosidade iniciou-se assim que foram para o ar as primeiras promos do programa com a moderadora Sandra Santos num estilo algo agreste e duro, neste caso, para o espectador. Não me atraiu. Logo de seguida, descobri que os comentadores (Marcos Perestrello - PS, Marco António Costa - PSD, Ana Drago - BE, Nuno Melo - CDS e Margarida Botelho - PCP) estariam a título pessoal e não em representação partidária. Não acreditei na capacidade de, repentinamente, tirar cinco "coelhos" da cartola com disponibilidade ou interesse para se demarcarem dos respectivos partidos, muito menos produzir um discurso apelativo sem vacuidade. Finalmente, ao ver os cenários da RTP fiquei com uma sensação de exiguidade e desconforto, a começar pela predominância dos tons branco e magenta, opção pouco "aconchegante". Também a tentativa de reproduzir um corredor, pareceu-me estranha para um programa de debate, formato que exige, pelo menos, a criação daquela sensação de "mesa redonda" entre os intervenientes.
Pelos vistos, tive razão. Não só houve quem partilhasse as minhas considerações, como os espectadores se encarregaram de demonstrar o seu desagrado através de índices de audiência bastante fracos (3,1% de audiência e 9,7% de share - 293 200 espectadores). Alguém dizia numa campanha que já não há políticos como antes. E com razão.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 14

Fragoso e as batatas

É sempre difícil para um director de programas suceder a um bom director de programas. Que o diga José Fragoso, o novo responsável pela programação da RTP. Fazer o que Nuno Santos fez, ou seja, tentar situar o canal público no âmbito do tão discutido "serviço público" e com resultados, não está a ser fácil. Sinceramente, não estava à espera que o fosse. Calçar as sandálias do "pescador" Nuno Santos é uma tarefa que, até ao momento, tem-se revelado pouco lograda. A RTP que com Santos havia conseguído ultrapassar a SIC pela primeira vez em mais de uma década, voltou à antiga posição, fruto também do trabalho de Nuno Santos em Carnaxide. Em termos de estilo, o próprio José Fragoso parece-me ainda pouco dinâmico e com algum défice de conhecimento dos dossiers da estação pública. Hèlas, resta-nos aguardar o que o futuro reserva.
Por falar em futuro, a RTP finalmente anunciou a estreia do remake da novela Vila Faia para 7 de Março, uma sexta-feira. Depois de anunciada por diversas vezes, a aposta lançada pela direcção anterior recebe assim luz verde para ser emitida. Eis senão quando, na sessão de apresentação do formato, ficamos a saber que Vila Faia será transmitida somente aos fins-de-semana no período imediatamente anterior ao Telejornal (18h30-20h). No mínimo estranho e surpreendente (sobretudo para actores, autores e técnicos). Argumenta José Fragoso que se trata de um horário "que toda a gente pode ver”. E diz mais: “É um horário alternativo ao que é a noite dos canais de televisão. Esta decisão não foi tomada de um momento para o outro, foi muito pensada." O director de programas da RTP esclareceu ainda que era seu intento que os formatos da estação estivessem "disponíveis nos horários em que podem ser alternativos ao que se faz nos outros canais”. Eu compreendo que se procurem alternativas ao excesso de horários ocupados por telenovelas nas grelhas de programação, contudo estas devem ser viáveis. Um produto como este necessita de um horário de grande exposição. Não me parece razoável, "esconder" uma das grandes apostas de 2008 nas tardes de fim-de-semana.
O que Fragoso se propõe é imitar o comportamento de Nuno Santos relativamente à novela Resistirei. A diferença é que as audiências dão razão ao responsável da SIC e o produto da RTP ainda nem sequer estreou. Posso estar equivocado, mas julgo estar perante uma condenação à partida.
Neste momento, fico aqui a pensar se Simone de Oliveira não terá tido razão ao mandar o director de programas "cozer batatas".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 13

Entrevistadores e entrevistados

Que o primeiro-ministro é um entrevistado difícil não parecem restar dúvidas. Não porque não responda às questões que lhe são colocadas mas pelo carácter incisivo que confere às suas intervenções, não permitindo a formulação de novas perguntas pelos entrevistadores, sem que primeiramente tenha concluído o seu raciocínio. Salvaguardadas as devidas diferenças, é como se tratasse de uma torrente de lava que queima tudo o que se interpõe no seu caminho. Não se julgue que se trata de uma critica a José Sócrates, antes pelo contrário. É bastante mais desafiador para um jornalista ter um entrevistado que o obrigue a "puxar dos galões" do que um, digamos assim, mais convencional. Contudo, para enfrentar interlocutores deste tipo é necessário estar pelo menos ao mesmo nível, percebendo qual a estratégia do entrevistado na ocasião e desmontando-a, posteriormente, com o evoluir da conversa.
Eis que a SIC falha neste grande pormenor. No espaço Sócrates: Três Anos de Governo, exibido ontem após o Jornal da Noite, Ricardo Costa, do canal de Carnaxide, e Nicolau Santos, director adjunto do Expresso ignoraram isto e acabaram a interromper constantemente o primeiro-ministro, dando ao espectador uma impressão desagradável, mesmo agressiva (sobretudo Ricardo Costa). Sócrates, com a lição bem estudada, não teve de se esforçar muito para dizer o que quis, no ritmo que bem entendeu. Com isto, o tempo foi passando e certos temas tiveram que ser tratados à pressa. O mérito de uns é o demérito de outros, neste caso, de Ricardo Costa e Nicolau Santos, que demonstraram estar muitos furos abaixo daquilo que se exigia para uma entrevista deste grau. Bem diferente do sucedido com José Alberto Carvalho e Judite de Sousa aquando da primeira grande entrevista de Sócrates enquanto chefe de governo (RTP).

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 12

Momentos de tensão

Devo confessar que, há cerca de duas semanas, a invasão da favela da Portelinha na novela Duas Caras (respectivamente episódios 82, 83 e 84) exibida pela SIC deixou-me empolgado. Diversas comparações tem sido feitas entre este acontecimento e similares sucedidos na novela Vidas Opostas, transmitida até Agosto de 2007 pela Rede Record, disponível entre nós no cabo. Convém aqui ressalvar que acompanhei poucos episódios da história de Marcílio Morais, embora saiba não só que a favela do Torto foi invadida por diversas vezes, como inclusive assisti à primeira invasão.
Uma vez conhecidos os dois casos, posso, de uma forma mais informada, me debruçar sobre o assunto. As diferenças, sem dúvida, existem. Em Vidas Opostas o episódio revestiu-se de tons mais crus, com pouca ou nenhuma maquilhagem. Um claro apelo a um certo "realismo". Ao facto terá certamente ajudado o emprego de cenário um natural, ou seja, de uma verdadeira favela. Em termos dramatúrgicos, as próprias personagens encontravam-se numa luta para expulsar os traficantes que ali se instalavam. Uma trama perfeitamente verosímil. Na Globo, a sequência da invasão foi toda mais estilizada. Não só a Portelinha era um exemplo de virtudes, como afinal a situação era novidade para aqueles lados. A própria favela é um grande "comunidade cenográfica" erigida nos estúdios do Projac. Não faltou igualmente uma certa dose de clichés , como a invasão ocorrer em pleno ambiente festivo, a dama da alta sociedade que se vê envolta em toda a tragédia ou o vilão que, no conforto da sua mansão, acompanha à distância o evoluir do ataque por si encomendado. Tudo clássicas estratégias para enfatizar o incontornável conflito entre o Bem e o Mal, o correcto e o errado, o justo e o injusto.
Embora estes aspectos pudessem diminuir o impacto da cena quando comparada à concorrência, a verdade é que sequências deste tipo dependem sobretudo da capacidade de criar um ambiente de tensão que estimule o espectador, gerando um estado de ansiedade que o acompanhe a cada nova cena. Neste particular, Duas Caras foi claramente bem sucedida. Podemos sempre discutir se todos os aspectos da invasão foram apresentados de forma credível, se o "exército" do traficante Lobato (óptimo Paulo César Pereio) não terá chegado de forma relativamente fácil ao centro da favela ou se era mesmo necessário exibir uma moradora a agredir um dos invasores com um utensílio de cozinha. A verdade é que a tensão instalada suplantou tudo isso, encimada pela inusitada banda sonora (valsa No Belo Danúbio Azul de Johann Strauss Filho) e sobretudo pela potencialmente antológica cena da bazooka empregue pelo líder Juvenal Antena (grande António Fagundes) contra os traficantes. Contudo, o maior crédito vai para o elenco, responsável por situações de grande impacto dramático como a morte da filha do pastor evangélico nos braços da socialite Gioconda (extraordinária Marília Pêra), perfeitamente de acordo com o tom conferido aos episódios.
Para um "noveleiro" confesso como eu, é quase que nostálgico verificar que a teledramaturgia que se produz actualmente ainda consegue, esporadicamente, criar aqueles grandes momentos de tensão que, amiúde, associamos às novelas do passado. É sinal que ainda existem bons autores como Aguinaldo Silva (autor de Duas Caras) e produtos com qualidades.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 11

Um susto de repetições

A expressão é minha, pelo menos assim o creio, e reflecte a já crónica falta de originalidade na programação de sessões de cinema na televisão portuguesa. Ainda onde tive prova disso. Pela segunda vez num curto espaço de tempo (e terceira num espaço temporal não tão alargado quanto isso), a RTP transmitiu na sua segunda sessão de ontem à noite, cerca da 1h40, a película "Scary Movie 3", na tradução portuguesa algo como "Um Susto de Filme". Apesar de entreter para quem sente necessidade de umas quantas gargalhadas vácuas (eu, por vezes, sinto), a profundidade do argumento não vai além deste nível tão superficial, se tanto. Daí que se coloque a questão das constantes repetições de filmes mais que vistos mas sem justificativa para tal. Se se tratasse da sessão dupla das noites de sábado na RTP2 a questão seria outra. Enquanto isso, a consulta da programação semanal toma quase que a forma de uma prece, na esperança que os responsáveis tenham sido fulminados pela centelha da criatividade.