Momentos de tensão
Devo confessar que, há cerca de duas semanas, a invasão da favela da Portelinha na novela Duas Caras (respectivamente episódios 82, 83 e 84) exibida pela SIC deixou-me empolgado. Diversas comparações tem sido feitas entre este acontecimento e similares sucedidos na novela Vidas Opostas, transmitida até Agosto de 2007 pela Rede Record, disponível entre nós no cabo. Convém aqui ressalvar que acompanhei poucos episódios da história de Marcílio Morais, embora saiba não só que a favela do Torto foi invadida por diversas vezes, como inclusive assisti à primeira invasão.
Uma vez conhecidos os dois casos, posso, de uma forma mais informada, me debruçar sobre o assunto. As diferenças, sem dúvida, existem. Em Vidas Opostas o episódio revestiu-se de tons mais crus, com pouca ou nenhuma maquilhagem. Um claro apelo a um certo "realismo". Ao facto terá certamente ajudado o emprego de cenário um natural, ou seja, de uma verdadeira favela. Em termos dramatúrgicos, as próprias personagens encontravam-se numa luta para expulsar os traficantes que ali se instalavam. Uma trama perfeitamente verosímil. Na Globo, a sequência da invasão foi toda mais estilizada. Não só a Portelinha era um exemplo de virtudes, como afinal a situação era novidade para aqueles lados. A própria favela é um grande "comunidade cenográfica" erigida nos estúdios do Projac. Não faltou igualmente uma certa dose de clichés , como a invasão ocorrer em pleno ambiente festivo, a dama da alta sociedade que se vê envolta em toda a tragédia ou o vilão que, no conforto da sua mansão, acompanha à distância o evoluir do ataque por si encomendado. Tudo clássicas estratégias para enfatizar o incontornável conflito entre o Bem e o Mal, o correcto e o errado, o justo e o injusto.
Embora estes aspectos pudessem diminuir o impacto da cena quando comparada à concorrência, a verdade é que sequências deste tipo dependem sobretudo da capacidade de criar um ambiente de tensão que estimule o espectador, gerando um estado de ansiedade que o acompanhe a cada nova cena. Neste particular, Duas Caras foi claramente bem sucedida. Podemos sempre discutir se todos os aspectos da invasão foram apresentados de forma credível, se o "exército" do traficante Lobato (óptimo Paulo César Pereio) não terá chegado de forma relativamente fácil ao centro da favela ou se era mesmo necessário exibir uma moradora a agredir um dos invasores com um utensílio de cozinha. A verdade é que a tensão instalada suplantou tudo isso, encimada pela inusitada banda sonora (valsa No Belo Danúbio Azul de Johann Strauss Filho) e sobretudo pela potencialmente antológica cena da bazooka empregue pelo líder Juvenal Antena (grande António Fagundes) contra os traficantes. Contudo, o maior crédito vai para o elenco, responsável por situações de grande impacto dramático como a morte da filha do pastor evangélico nos braços da socialite Gioconda (extraordinária Marília Pêra), perfeitamente de acordo com o tom conferido aos episódios.
Para um "noveleiro" confesso como eu, é quase que nostálgico verificar que a teledramaturgia que se produz actualmente ainda consegue, esporadicamente, criar aqueles grandes momentos de tensão que, amiúde, associamos às novelas do passado. É sinal que ainda existem bons autores como Aguinaldo Silva (autor de Duas Caras) e produtos com qualidades.