segunda-feira, 7 de abril de 2008

tvRAMA - 18

Os concursos da madrugada

Confesso que após o fim de Toca a Ganhar (madrugadas da TVI) acendeu-se em mim uma ténue chama de esperança. Seria o principio do fim deste género? Pura ilusão. Algumas semanas depois, a TVI voltou à carga com Sempre a Somar. Esta leva de concursos (não esquecendo Quando o Telefone Toca na SIC) é como as novidades: deixam de sê-lo ao fim de pouco tempo. De facto, tal constatação não é surpreendente uma vez que bem dissecado, o formato esgota-se em si próprio. Por mais passatempos que se inventem ou malabarismos que os apresentadores decidam fazer, a essência é, em si mesma, paupérrima. Agora, quando ao pouco apelo se junta o cansaço do telespectador, o late-night torna-se insuportável. Mas, quanto a isto, voltarei mais tarde.

tvRAMA - 17

O exercício da Memória

Depois de uma longa pausa, retomo a actividade deste blog para falar do programa comandado por Maria Elisa nas noites de domingo da RTP - Depois do Adeus. Partindo do princípio que a Memória não deve ser curta, o espaço de debate revisita alguns acontecimentos da nossa história recente, procurando mostrar a sua ainda pertinência nas actuais dinâmicas da sociedade portuguesa. Foi o caso da profética emissão sobre as cheias que inundaram Lisboa no final dos anos 60 ou do tema do programa de ontem, o fatídico incêndio do Chiado a 25 de Agosto de 1988.
Com um estilo sóbrio mas nunca distante, Maria Elisa é o cicerone que guia o espectador numa visita pelas salas e corredores desse museu que é Portugal. Por outro lado, a abordagem transversal dos temas ajuda, mesmo o mais desatento ou demarcado, a perceber o impacto causado na sociedade pelos acontecimentos evocados. Através de um leque diversificado de convidados torna-se possível não só melhor contextualizar as temáticas como dissecar os diferentes aspectos inerentes às mesmas.
A Memória de um povo é a sua História. Olvidá-la é quase que negar o que fomos e o que somos. Daí que para compreender esta entidade colectiva da qual fazemos parte, seja importante efectuar este exercício de revisitação, procurando nele uma parte de nós mesmos. Depois do Adeus parece-me um válido contributo.

sexta-feira, 7 de março de 2008

tvRAMA - 16

Notícias indiscriminadas

A recente vaga de crimes violentos em Portugal tem, como seria de esperar, feito eco na generalidade da imprensa, leia-se, escrita, falada e ouvida. Aumento efectivo da insegurança ou simples exagero, a verdade é que, por estes dias, cada acto do género é, quase indiscriminadamente, notícia.
Que o digam os espectadores que, como eu, acompanharam a edição de hoje do Jornal da Tarde (RTP). De uma só assentada foram duas as notícias envolvendo mortes e assassinatos, dispostas de tal forma que um cidadão mais incauto poderia julgar que o melhor seria começar a pensar duas vezes antes de sair de casa. Um dos casos envolvia um ajuste de contas com um empresário numa pequena aldeia, o outro, do mesmo género, tinha como "protagonistas" dois paquistaneses e envolvia ainda um comerciante chinês na zona das Laranjeiras.
As histórias e os locais não são o que mais interessa aqui, muito menos pretende-se desvalorizar os casos em questão. O que importa é informar com objectividade assuntos merecedores de tal e, francamente, evitar dar a sensação que se está a ser levado ao sabor de uma qualquer corrente, simultaneamente correndo o risco de ignorar o valor-notícia. Confesso que, no canal de serviço público, pareceu-me inusitado. É inegável que a temática está na ordem do dia. Contudo, basta abrir os jornais diários. Nas páginas destes, é tema todos os dias.

sábado, 1 de março de 2008

tvRAMA - 15

Corredor da mesmice

Na noite de quinta-feira, não assisti à estreia do novo programa de debate político da RTP, intitulado Corredor do Poder. Agora que tomei conhecimento das reacções ao formato, apetece-me dizer que já sabia da inutilidade da minha presença em frente ao ecrã do "primeiro canal" para acompanhar 50 minutos de um "enredo" já muito visto, logo, cansativo e desinteressante.
A minha falta de curiosidade iniciou-se assim que foram para o ar as primeiras promos do programa com a moderadora Sandra Santos num estilo algo agreste e duro, neste caso, para o espectador. Não me atraiu. Logo de seguida, descobri que os comentadores (Marcos Perestrello - PS, Marco António Costa - PSD, Ana Drago - BE, Nuno Melo - CDS e Margarida Botelho - PCP) estariam a título pessoal e não em representação partidária. Não acreditei na capacidade de, repentinamente, tirar cinco "coelhos" da cartola com disponibilidade ou interesse para se demarcarem dos respectivos partidos, muito menos produzir um discurso apelativo sem vacuidade. Finalmente, ao ver os cenários da RTP fiquei com uma sensação de exiguidade e desconforto, a começar pela predominância dos tons branco e magenta, opção pouco "aconchegante". Também a tentativa de reproduzir um corredor, pareceu-me estranha para um programa de debate, formato que exige, pelo menos, a criação daquela sensação de "mesa redonda" entre os intervenientes.
Pelos vistos, tive razão. Não só houve quem partilhasse as minhas considerações, como os espectadores se encarregaram de demonstrar o seu desagrado através de índices de audiência bastante fracos (3,1% de audiência e 9,7% de share - 293 200 espectadores). Alguém dizia numa campanha que já não há políticos como antes. E com razão.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 14

Fragoso e as batatas

É sempre difícil para um director de programas suceder a um bom director de programas. Que o diga José Fragoso, o novo responsável pela programação da RTP. Fazer o que Nuno Santos fez, ou seja, tentar situar o canal público no âmbito do tão discutido "serviço público" e com resultados, não está a ser fácil. Sinceramente, não estava à espera que o fosse. Calçar as sandálias do "pescador" Nuno Santos é uma tarefa que, até ao momento, tem-se revelado pouco lograda. A RTP que com Santos havia conseguído ultrapassar a SIC pela primeira vez em mais de uma década, voltou à antiga posição, fruto também do trabalho de Nuno Santos em Carnaxide. Em termos de estilo, o próprio José Fragoso parece-me ainda pouco dinâmico e com algum défice de conhecimento dos dossiers da estação pública. Hèlas, resta-nos aguardar o que o futuro reserva.
Por falar em futuro, a RTP finalmente anunciou a estreia do remake da novela Vila Faia para 7 de Março, uma sexta-feira. Depois de anunciada por diversas vezes, a aposta lançada pela direcção anterior recebe assim luz verde para ser emitida. Eis senão quando, na sessão de apresentação do formato, ficamos a saber que Vila Faia será transmitida somente aos fins-de-semana no período imediatamente anterior ao Telejornal (18h30-20h). No mínimo estranho e surpreendente (sobretudo para actores, autores e técnicos). Argumenta José Fragoso que se trata de um horário "que toda a gente pode ver”. E diz mais: “É um horário alternativo ao que é a noite dos canais de televisão. Esta decisão não foi tomada de um momento para o outro, foi muito pensada." O director de programas da RTP esclareceu ainda que era seu intento que os formatos da estação estivessem "disponíveis nos horários em que podem ser alternativos ao que se faz nos outros canais”. Eu compreendo que se procurem alternativas ao excesso de horários ocupados por telenovelas nas grelhas de programação, contudo estas devem ser viáveis. Um produto como este necessita de um horário de grande exposição. Não me parece razoável, "esconder" uma das grandes apostas de 2008 nas tardes de fim-de-semana.
O que Fragoso se propõe é imitar o comportamento de Nuno Santos relativamente à novela Resistirei. A diferença é que as audiências dão razão ao responsável da SIC e o produto da RTP ainda nem sequer estreou. Posso estar equivocado, mas julgo estar perante uma condenação à partida.
Neste momento, fico aqui a pensar se Simone de Oliveira não terá tido razão ao mandar o director de programas "cozer batatas".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 13

Entrevistadores e entrevistados

Que o primeiro-ministro é um entrevistado difícil não parecem restar dúvidas. Não porque não responda às questões que lhe são colocadas mas pelo carácter incisivo que confere às suas intervenções, não permitindo a formulação de novas perguntas pelos entrevistadores, sem que primeiramente tenha concluído o seu raciocínio. Salvaguardadas as devidas diferenças, é como se tratasse de uma torrente de lava que queima tudo o que se interpõe no seu caminho. Não se julgue que se trata de uma critica a José Sócrates, antes pelo contrário. É bastante mais desafiador para um jornalista ter um entrevistado que o obrigue a "puxar dos galões" do que um, digamos assim, mais convencional. Contudo, para enfrentar interlocutores deste tipo é necessário estar pelo menos ao mesmo nível, percebendo qual a estratégia do entrevistado na ocasião e desmontando-a, posteriormente, com o evoluir da conversa.
Eis que a SIC falha neste grande pormenor. No espaço Sócrates: Três Anos de Governo, exibido ontem após o Jornal da Noite, Ricardo Costa, do canal de Carnaxide, e Nicolau Santos, director adjunto do Expresso ignoraram isto e acabaram a interromper constantemente o primeiro-ministro, dando ao espectador uma impressão desagradável, mesmo agressiva (sobretudo Ricardo Costa). Sócrates, com a lição bem estudada, não teve de se esforçar muito para dizer o que quis, no ritmo que bem entendeu. Com isto, o tempo foi passando e certos temas tiveram que ser tratados à pressa. O mérito de uns é o demérito de outros, neste caso, de Ricardo Costa e Nicolau Santos, que demonstraram estar muitos furos abaixo daquilo que se exigia para uma entrevista deste grau. Bem diferente do sucedido com José Alberto Carvalho e Judite de Sousa aquando da primeira grande entrevista de Sócrates enquanto chefe de governo (RTP).

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 12

Momentos de tensão

Devo confessar que, há cerca de duas semanas, a invasão da favela da Portelinha na novela Duas Caras (respectivamente episódios 82, 83 e 84) exibida pela SIC deixou-me empolgado. Diversas comparações tem sido feitas entre este acontecimento e similares sucedidos na novela Vidas Opostas, transmitida até Agosto de 2007 pela Rede Record, disponível entre nós no cabo. Convém aqui ressalvar que acompanhei poucos episódios da história de Marcílio Morais, embora saiba não só que a favela do Torto foi invadida por diversas vezes, como inclusive assisti à primeira invasão.
Uma vez conhecidos os dois casos, posso, de uma forma mais informada, me debruçar sobre o assunto. As diferenças, sem dúvida, existem. Em Vidas Opostas o episódio revestiu-se de tons mais crus, com pouca ou nenhuma maquilhagem. Um claro apelo a um certo "realismo". Ao facto terá certamente ajudado o emprego de cenário um natural, ou seja, de uma verdadeira favela. Em termos dramatúrgicos, as próprias personagens encontravam-se numa luta para expulsar os traficantes que ali se instalavam. Uma trama perfeitamente verosímil. Na Globo, a sequência da invasão foi toda mais estilizada. Não só a Portelinha era um exemplo de virtudes, como afinal a situação era novidade para aqueles lados. A própria favela é um grande "comunidade cenográfica" erigida nos estúdios do Projac. Não faltou igualmente uma certa dose de clichés , como a invasão ocorrer em pleno ambiente festivo, a dama da alta sociedade que se vê envolta em toda a tragédia ou o vilão que, no conforto da sua mansão, acompanha à distância o evoluir do ataque por si encomendado. Tudo clássicas estratégias para enfatizar o incontornável conflito entre o Bem e o Mal, o correcto e o errado, o justo e o injusto.
Embora estes aspectos pudessem diminuir o impacto da cena quando comparada à concorrência, a verdade é que sequências deste tipo dependem sobretudo da capacidade de criar um ambiente de tensão que estimule o espectador, gerando um estado de ansiedade que o acompanhe a cada nova cena. Neste particular, Duas Caras foi claramente bem sucedida. Podemos sempre discutir se todos os aspectos da invasão foram apresentados de forma credível, se o "exército" do traficante Lobato (óptimo Paulo César Pereio) não terá chegado de forma relativamente fácil ao centro da favela ou se era mesmo necessário exibir uma moradora a agredir um dos invasores com um utensílio de cozinha. A verdade é que a tensão instalada suplantou tudo isso, encimada pela inusitada banda sonora (valsa No Belo Danúbio Azul de Johann Strauss Filho) e sobretudo pela potencialmente antológica cena da bazooka empregue pelo líder Juvenal Antena (grande António Fagundes) contra os traficantes. Contudo, o maior crédito vai para o elenco, responsável por situações de grande impacto dramático como a morte da filha do pastor evangélico nos braços da socialite Gioconda (extraordinária Marília Pêra), perfeitamente de acordo com o tom conferido aos episódios.
Para um "noveleiro" confesso como eu, é quase que nostálgico verificar que a teledramaturgia que se produz actualmente ainda consegue, esporadicamente, criar aqueles grandes momentos de tensão que, amiúde, associamos às novelas do passado. É sinal que ainda existem bons autores como Aguinaldo Silva (autor de Duas Caras) e produtos com qualidades.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 11

Um susto de repetições

A expressão é minha, pelo menos assim o creio, e reflecte a já crónica falta de originalidade na programação de sessões de cinema na televisão portuguesa. Ainda onde tive prova disso. Pela segunda vez num curto espaço de tempo (e terceira num espaço temporal não tão alargado quanto isso), a RTP transmitiu na sua segunda sessão de ontem à noite, cerca da 1h40, a película "Scary Movie 3", na tradução portuguesa algo como "Um Susto de Filme". Apesar de entreter para quem sente necessidade de umas quantas gargalhadas vácuas (eu, por vezes, sinto), a profundidade do argumento não vai além deste nível tão superficial, se tanto. Daí que se coloque a questão das constantes repetições de filmes mais que vistos mas sem justificativa para tal. Se se tratasse da sessão dupla das noites de sábado na RTP2 a questão seria outra. Enquanto isso, a consulta da programação semanal toma quase que a forma de uma prece, na esperança que os responsáveis tenham sido fulminados pela centelha da criatividade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 10

Popularesco

O termo "popularesco" não tem, ou melhor, não deve sempre ter uma conotação negativa. Pelo menos à partida. Inserido na grelha de uma estação com uma lógica virada para as classes mais populares, As Tardes da Júlia (TVI) é um formato que desde a cor dos décors até ao estilo da apresentadora cumpre a sua missão de cativar um determinado tipo público, público esse que, pelos vistos, é bastante numeroso não fosse o canal de Queluz líder de audiências há vários anos.
O tema da edição de hoje era o Regicídio, acontecimento do qual se comemora um século. Além de um historiador, os convidados eram João Soares, republicano, e o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles, monárquico convicto. Enquanto discorriam sobre a conjuntura do país de então ou as diferenças entre regimes monárquicos e republicanos, levantando algumas hipóteses académicas, (tudo com as doses certas de seriedade e bom humor), esperava-se a "colherada" de Júlia Pinheiro. A dita chegou aquando do relato do momento do assassinato dos monarcas. Não esperou e imediatamente começou a imitar o gesto de D. Amélia que, munida com um ramo de flores, atacava um dos regicidas, gritando "Infames, infames!". O público riu. Momentos depois, foi a vez de comentar uma imagem da família real, dizendo que o rei ainda não estava "gordinho" na ocasião. A assistência voltou a rir. Quem não conhecesse a linha estilística do programa até poderia achar ridículo e desfazado do contexto propiciado pelos convidados. Para quem está familiarizado com a apresentadora e o programa, nada mais natural e... apropriado.

tvRAMA - 9

Sem contacto

Lançado há cerca de dois anos, o programa Contacto (SIC) constituiu-se como uma das "medidas" da administração Penim. Apresentado por duas figuras da casa, Rita Ferro Rodrigues e Nuno Graciano, o formato surgiu com a missão de conquistar um horário até então liderado pelo Portugal No Coração (RTP), já em momento de desgaste. Elaborado com as mesmas matérias-primas do concorrente e adicionados alguns condimentos à la Fátima, o programa logrou impor-se nas audiências, alcançando a preferência do público. Isto foi há dois anos. Entretanto, a TVI, não querendo perder o barco do entretenimento vespertino, voltou a convocar a incontornável Júlia Pinheiro e estreou, nos primeiros meses de 2007, o As Tardes da Júlia, em concorrência directa com os demais. Também neste meio termo, o Portugal no Coração passou por um processo de renovação, contando inclusive com uma nova dupla de apresentadores (João Baião e Tânia Ribas de Oliveira).
Chegados ao presente dia, verificamos que o Contacto não só foi relegado para a terceira posição como parece ter dificuldade em reter os espectadores que a SIC vai fidelizando com a reexibição da ficção brasileira Terra Nostra. Se porventura não tão evidente à partida, a verdade é que o formato deixa a desejar. Apostando num estilo híbrido a meio caminho entre a linha adoptada pelos concorrentes RTP e TVI, o Contacto cai num certo artificialismo, num produto difícil de classificar quando comparado a estes. Se, por um lado, tem havido bons momentos com convidados de valia (recordo-me de Artur Agostinho), por outro não se percebeu, a certa altura, a insistência na apresentação dos chamados "casos da vida", com direito a muito choro e expressões de sofrimento. Isto para não falar da inenarrável rubrica "Calor da Tarde", trocadilho de mau gosto com um "célebre" bar. Pseudo figuras públicas, quais comentadores credenciados, discorrem durante cerca de uma hora, sobre as maiores banalidades de um Jet-7 português já de si banal e de pedigree duvidoso. Tudo isto abordado com a maior das seriedades, como se de um assunto de importância nacional se tratasse. Talvez este seja o maior pecado do programa, conceder uma importante fatia do programa a este tipo de rubrica, passando logo em seguida para uma conversa com figuras como Artur Agostinho, Simone de Oliveira ou Eduardo Sá. É passar do "8 para o 80" e isso torna-se difícil de digerir.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

tvRAMA - 8

O Salvador da Pátria

Não. Não se trata da conhecida novela de Lauro César Muniz, recordada, entre nós, pelo protagonista Sassá Mutema do magnífico Lima Duarte. É, antes de mais, uma tentativa de rotular o novo director de programas da SIC, Nuno Santos. Ano novo, vida nova. Em Carnaxide, 2008 começou com a despedida de Francisco Penim (que muito prometeu e pouco cumpriu) e a chegada daquele que, junto com Almerindo Marques, infundiu um novo sopro de vida à RTP e à famigerada expressão "serviço público". Com ele, o novo responsável trouxe duas "armas" que deram cartas no canal público: os Gato Fedorento (em momento de apogeu) e Daniel Oliveira, jovem profissional dinâmico e com provas dadas em formatos como Só Visto e Top Mais, programas aos quais soube conferir o tom certo numa grelha de um canal generalista do Estado.
Relegada para a terceira posição, à outrora líder não restou outra opção que não lançar mãos-à-obra e, para já, ultrapassar o obstáculo RTP (sim, porque a TVI é outra "história"). Trata-se da mesma RTP que Nuno Santos conseguiu galvanizar, reestruturando-a e tornando-a competitiva. No fundo, assistimos à luta de um homem consigo próprio. Passadas as primeiras semanas, os efeitos já se fazem sentir e para melhor. No período de 8 a 21 de Janeiro, a SIC conseguiu uma subida global de 0,9% (24,7 para 25,6%), em termos semanais. Continuou a liderar as manhãs com o programa Fátima, subiu nas tardes graças à reposição da telenovela Terra Nostra (24,4 para 25,1%), aproximando-se da concorrência e no acesso ao prime-time, retirou da grelha o flop A Ganhar é que a Gente se Entende, que não chegava aos 20% de share, e substituiu-o pela novela Sete Pecados. Em duas semanas passou de 22,6 para 23,5%. Chegado o prime-time, horário de capital importância, apostou em produtos-garantia de audiência: humor popular (Malucos do Riso e Camilo em Sarilhos) e telenovelas brasileiras (Desejo Proibido e Duas Caras) . Embora longe de fazer mossa à líder TVI, registou-se uma subida de 0,5% para os 25,2 de share. Pode parecer pouco, mas se se pensar que uma estratégia eficaz de programação assenta numa boa articulação de horários, verifica-se a opção de aumentar a duração dos episódios de Duas Caras (só hoje foi cerca de uma hora e meia), permite à SIC entrar melhor na faixa horária da madrugada, onde a estação de Queluz (TVI) liderava há semanas. Aqui, o canal de Balsemão registou a maior subida. No período em consideração neste texto foram, nada mais nada menos, que 4,6%, tendo conquistado a liderança com a marca de 28,7%. Já aqui foi mencionado um dos formatos sacrificados pela nova direcção de programas. O outro, embora se trate em rigor de um semi-sacrifício, foi a ficção luso-latina Resistirei (sábados - 22%), que cedeu o lugar a capítulos mais alargados da novela da Globo, com melhores resultados.
De facto, parece que até na ficção brasileira as apostas de Nuno Santos vão dando frutos. Se não atente-se: no horário de acesso ao prime-time, ou seja, imediatamente antes do Jornal da Noite, a SIC debatia-se, como já mencionado, com um share inferior a 20%. Actualmente, a novela Sete Pecados regista cerca de 26%. Por outro lado, Duas Caras, esticada até um horário mais tardio, vem registando níveis crescentes de audiência (na ordem dos 35%). Já a mais recente Desejo Proibido, a concorrer directamente com a líder Fascínios (TVI - 43%), vai amealhando paulatinamente o seu quinhão, encontrando-se agora nos 30% de share.
Após esta leva interminável de números, a conclusão a que se chega é que, a curto-prazo, Nuno Santos tomou a única medida possível, mexeu nas "peças", acrescentando alguns programas, descartando outros. Dentro da linha de programação que a SIC tem vindo a adoptar há vários anos, parece-me uma atitude sensata e consciente de alguém com uma boa capacidade de leitura da realidade de Carnaxide. Os primeiros resultados são animadores, resta aguardar o que virá.

Esclarecimento

Para efeitos de agregação de conteúdos sob o mesmo tema, incluíram-se alguns textos publicados anteriormente noutro blog.

tvRAMA - 7


Decisões de Verão
A chegada da época de Verão é sempre altura de mudanças nas grelhas televisivas. Periodo tradicionalmente marcado por um decréscimo do número de espectadores, a aposta das estações televisivas recai, frequentemente, sobre reposições e, em menor grau, sobre novos programas e séries. Este ano, a chegada do Verão já se está a fazer sentir. Por um lado, temos a sobre-exposição da Selecção Nacional de futebol, por outro, qual ponte, o futuro próximo da SIC, cuja grande cartada é, sem dúvida, a transmissão do Mundial da Alemanha. A exagerada mediatização da Selecção continua a surpreender embora não seja surpresa nenhuma. Num país que continua a ir beber ao poluto cálice da bola, chega a parecer mais lógico gerar espanto quem precisamente continua a criticar todo este circo montado. A verdade é que, embriagados ou não, a Selecção tem tido direito a tudo e mais alguma coisa: novos complexos desportivos, recepções com as altas (e de estatura menor...) figuras de Estado, manifestações populares e, obviamente, cobertura mediática. Neste último particular, as televisões tem sido irrepreensíveis: magazines diários dedicados ao mundial, empolação dos 'passeios' da Selecção em todos os blocos noticiosos, criação de hinos para a cobertura do Mundial, apresentação - qual selecção - das equipas de jornalistas e comentadores em serviço na competição. No fundo, é a tentativa de chamar o público à fidelização nas respectivas emissões, tendo por base a identificação do português pela sua Selecção, numa estratégia de objectivo comum: todos em juntos em esforço e dedicação até à vitória final (para ambos os lados). De entre a televisão generalista, o caso da SIC é inquestionavelmente o mais flagrante. Concretamente, a emissão A Mais Bela Bandeira do Mundo conseguiu, apelando ao patriotismo e ao público feminino, criar um ambiente de histerismo colectivo que o canal de Carnaxide agradeceu, podendo assim larçar de vez a sua estratégia em relação ao Mundial da Alemanha. Como se veio a verificar, essa 'manisfestação' foi o prólogo de tudo o que se seguiu: a onda de reverência à Selecção, alicerçada em promessas, esperenças e desejos, ou seja, um vazio de ar que vai oxigenando todas estas peripécias até ao jogo inaugural, pelo menos. Com a SIC passa-se o mesmo. O primeiro grande impulso para sair da crise é precisamente este Mundial e esta Selecção que de promessa em promessa, de esperança em esperança, vai passeando pelo país envolvendo o povo, dando-lhe de beber o tal cálice que o entretem e alheia às preocupações diárias. Pão e circo, pura e simplesmente. Em Carnaxide, o próximo mês pode ser decisivo para uma viragem. Para tanto, os olhares colocam-se sobre a prestação da equipa de todos nós. O insucesso será a frustração de todo um povo... e de um canal também.

tvRAMA - 6


O prelúdio da TV regional-local
Alentejo TV, Invicta TV, Famalicão TV, Aveiro TV. Nos pacotes da televisão por cabo ou na Internet, estes são alguns dos canais que, em Portugal, operam ao nível local e regional. Todos de muito recente formação, apresentam como principal objectivo o mostrar da realidade dos seus locais de origem: o desporto, a cultura, os acontecimentos, no fundo, o quotidiano de, na maioria dos casos, regiões com pouco ou nenhum poder decisório, não englobadas nos grandes centros urbanos (Lisboa e Porto, entenda-se). Para tal, apelam à participação dos cidadãos, empresas e associações locais na produção de conteúdos para posterior transmissão. Pretende-se, desta forma, dar visibilidade a um Portugal que, não sendo propriamente atrasado (nos termos em que, regra geral, se aplica a palavra), sofre com o desinteresse do poder central e dos variados grupos de interesse, nomeadamente o económico. Assim sendo, nestas regiões, o dito progresso passa somente pela iniciativa local que, muitas vezes, carece de meios significativos para a concretização de projectos. Se os meios permitirem o acesso à televisão por cabo, óptimo; se não, com uma camara de video, uma ligação à Internet e suporte publicitário, coloca-se de pé um canal online. As equipas de trabalho são, em grande parte, formadas por colaboradores, jornalistas e não-jornalistas (cidadãos), que procuram chegar praticamente a todas as esquinas das localidades nas quais as emissões se centram, sejam elas Aveiro, Famalicão ou a região alentejana. Este panorama que se procura traçar é a prova como as novas tecnologias são cada vez mais plurais, como armam e guiam à etapa última exemplos de iniciativa individual na sua mais pura forma. O fenómeno que se está a operar no âmbito da criação de uma televisão local e regional online em Portugal é tão ou mais comparável, numa escala global, ao surgimento dos blogs ou, mais recentemente, dos podcasts. Estes são formatos cuja criação ofereceu a possibilidade ao mais comum dos mortais de escrever o que pensa ou dar a conhecer a música que mais aprecia a, na melhor das hipóteses, uma audiência de dimensões insuspeitas. No caso das televisões online, o âmbito regional e local, não impede o contacto com uma audiência muito superior à escala para que foram criadas. A Internet é isto mesmo, um constante quebrar de barreiras rumo a uma dimensão global. Em cada um destes canais, o cariz regional dos programas não se projecta no seu âmbito, por mais que se afirme que é uma televisão feita para a terra ou a região. A opção pela Internet abriu as portas de Aveiro ou Famalicão a uma potencial comunidade de milhões e milhões de utilizadores do universo online o que, em larga medida, ultrapassa as primeiras intenções de quem criou estes canais. Com ou sem essa intenção, a verdade é que nunca como antes se pôde dar a conhecer uma região ou mesmo uma cidade pela força da imagem em movimento. Todavia, conscientes de que é só um começo, há que perceber que muito ainda pode ser feito nesta latitude em prol do estabelecimento de uma televisão regional-local em Portugal. Para já, interessa promover a sedimentação destas primeiras experiências. E esperar...

tvRAMA - 5

O fascínio do fogo
Desde segunda-feira está aberta a época de incêndios em Portugal. A propósito do facto, julgo que ninguém se deverá ter esquecido da celeuma causada pela cobertura mediática dos incêndios que assolaram o país no ano passado. Uma celeuma resultante da tendência para a exaltação da espectacularidade das situações, apontada por críticos e espectadores ao trabalho dos meios de comunicação social, sobretudo a televisão e os jornais. Um ano depois, a RTP surge com a ideia de promoção da auto-regulação dos vários media em relação ao tratamento do assunto dos incêndios. A RTP parte para este debate com a intenção de definir claramente um rumo a dar à cobertura informativa do tema, uma orientação que seja transversal a todos os meios de comunicação social. No fundo, uma uniformização da forma de abordagem da questão. As reacções de SIC e TVI, não surpreendentemente, foram contrárias à intenção do canal público. Argumentam as estações privadas não estarem dispostas a "esconder os incêndios" e a "pintar um mundo cor-de-rosa". Concluem com uma das grandes verdades jornalisticas: o direito dos telespectadores de serem informados. Se a conclusão é inabalável, as premissas são, no mínimo, discutíveis. Mesmo propositadamente, julgo ser dificil branquear uma situação cuja evidência não é decerto fruto da espectacularidade de uma imagem num jornal ou do choque causado por uma reportagem televisiva. Todos quantos se informam e são informados tem noção dos vários factores que contribuiram e contribuem para o actual estado da floresta portuguesa e do barril de pólvora que ela representa. No entanto, a consciência disso deve brotar do público e não ser induzida pelo melhor ângulo de uma imagem de um grande incêndio ou pelas imagens captadas no momento em que uma habitação é atacada pelas chamas. Parece ingénuo mas, no entanto, não me parece lícito que se jogue com a delicadeza de um assunto que lida tanto com a vida humana como com o drama e a piedade que ela exalta. O que assistimos no ano transacto foi à montagem de um grande espectáculo em volta das chamas e do fogo. Puxou-se o drama aos limites, ultrapassaram-se barreiras para trazer o sofrimento do cidadão comum ao centro do palco, criou-se uma aura de desgraça que, a dada altura, parecia assemelhar-se muito pouco ao jornalismo. Não tenhamos dúvidas, o fogo fascina, enebria, para o melhor ou para o pior. A prova já foi dada. Mas será tal benéfico para o direito de informar e esclarecer? Não me parece.

tvRAMA - 4


O fim de uma era?
O percurso efectuado pelo reality-show "Circo das Celebridades" ao longo de sete ou oito semanas de exibição revelou ser sintomático do actual momento vivido por este tipo de formato televisivo. Estreando com níveis de audiência abaixo das espectativas, viu, semana após semana, o número de espectadores ficar cada vez mais reduzido. Moniz, sempre atento a estas questões, constatou a tempo a realidade do Circo. Apercebendo-se da mossa causada na audiência do prime-time pelo diário do reality-show logo a seguir ao "Jornal Nacional", tratou logo de o empurrar para depois da meia noite por forma a evitar estragos. Mesmo os próprios directos ao Domingo não se livraram de uma derrota face ao seu concorrente directo, o "Herman SIC" - pelo menos aquando da comemoração do aniversário de Herman, a meu ver, o caso mais flagrante. No fundo, estes exemplos apenas vem atestar o que há muito já se falava: a possiblidade de decadência deste género televisivo. Desde a estreia da primeira edição do "Big-Brother" em 2000 até ao presente muito mudou. Aquele público que se rendeu à encenação de uma suposta "vida em directo" já não é o mesmo inocente que agora rejeita o "Circo das Celebridades". Muitas edições e reality-shows depois, o espectador mostra-se cansado do formato proposto ao longo de anos: o acompanhar do dia-a-dia de (na maioria dos casos) pseudo-celebridades que interagem e realizam tarefas, tendo como pano de fundo uma casa, uma quinta ou um circo. De facto, tem sido este o padrão vigente desde os idos do "Big-Brother" com pouca ou nenhuma variação. É talvez seja essa falta de novidade que tenha levado o espectador ao cansaço e, em última instância, à indiferença. É tal como assistir a diversas novelas com tramas demasiadamente semelhantes e com tantos pontos em comum que, às tantas, o público já percebeu o que pode ou o que vai acontecer, não havendo espaço para a surpresa. O fascínio pela vida alheia, pelas possibilidades de um voyeurismo televisivo fazem parte do passado, pelo menos nestes moldes. Coloca-se a questão: estaremos no fim de uma era? Provavelmente. A formúla revela-se desgastada, são ideias velhas em roupagens novas. No entanto, não me parece lícito pensar nos reality-shows como moribundos e com o destino traçado. Não para já. É possível o renascimento da fénix. A TVI anunciou para este Domingo a estreia de um novo reality-show "O Meu Odioso e Inacreditável Noivo". Não havendo ainda base para uma análise concreta, é clara, pelo menos para já, a tentativa de ensaiar algo de diferente, com uma vertente algo humoristica e capaz de suscitar a surpresa e o interesse no espectador. Até lá, a realidade mantém-se. É tempo de seguir em frente e mudar.

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A globalização das séries
A proeminência de séries estrangeiras na programação dos canais generalistas é algo que, ainda há alguns anos, não mereceria o destaque por parte de quem observa o dia-a-dia do pequeno ecrã. Seja por maior divulgação de quem transmite, pelos reconhecidos méritos das histórias ou pela cada vez maior visibilidade do universo da compra e venda de formatos, a verdade é que nunca como antes o público tem à sua disposição toda uma panóplia de séries com as mais diversas vertentes. O tempo em que as séries estrangeiras eram relegadas para os horários mais tardias (Seinfeld, p.ex.), suscitando críticas de espectadores e críticos, parece ter os dias contados. Não porque esta prática se tenha extinguido, mas por um maior cuidado, por parte dos generalistas, em programar devidamente este tipo de conteúdos. Por outro lado, a alternativa oferecida por canais por cabo como o AXN (líder no cabo) funcionou como alerta para a procura de que o formato série tem sido alvo. Os canais generalistas operaram, assim, uma alteração nos modelos de programação. Afastando a transmissão de séries dos períodos da madrugada, criaram-se horários mais 'regulares' para a sua difusão. A RTP oferece, nas tardes de fim-de-semana, as séries O.C. - Na Terra dos Ricos e Perdidos (repetição do episódio das noites de Terça), a SIC, fruto de uma maior aposta nestes formatos, apresenta durante toda a semana a partir da meia-noite séries como CSI (Miami, Nova Iorque) e Senhora Presidente; aos fins-de-semana à tarde trasmite CSI Las Vegas e Alias - A Vingadora. Por seu turno, a TVI, à sombra do enorme êxito da ficção por si produzida, dá-se ao luxo de apresentar apenas uma série durante a semana - Dr. House -, excelente por sinal, mas meia-noite dentro. A 2: é outro dos canais com grande oferta. Durante a semana, as noites são preenchidas por séries como Sete Palmos de Terra, Roma, Calma, Larry! (vertente humorística), E.R. - Serviço de Urgência, 24 e Sobrenatural. Na maioria dos casos, o espectador tem perante si séries premiadas ou de créditos firmados com exibição num grande número de países à volta do globo. No fundo, é disto que se trata: do globo. A globalização de um formato televisivo não é nenhuma novidade; a forma como instantaneamente assimilamos os modos e custumes (e a esse propósito, os estereótipos) veiculados por esta ou aquela série também não vem acrescentar nada. A não ser audiência, preferivelmente. O que de interessante terá esta realidade será, talvez, o facto do maior interesse nestes formatos ser consequência da assimilação vertiginosa possibilitada pelos diversos agentes globalizantes.

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A travessia do deserto
A substituição, há alguns meses, de Manuel Fonseca por Francisco Penim na direcção de programas de SIC foi a confirmação do estado de crise no qual a estação de Balsemão se encontra. Acossada por uma concorrência do calibre de novelas como Ninguém Como Tu e Morangos com Açúcar que, entre outros factores, tirou a liderança à SIC, o novo director agiu de imediato. Livrou-se de programas como Senhora Dona Lady e Às Duas por Três, reformulou o programa da manhã apresentado por Fátima Lopes, obrigou a certas e determinadas contenções no Herman SIC, entre outras medidas de menor proporção. Acima de tudo, pareceu tentar devolver à SIC uma imagem de maior agressividade na luta diária pelas audiências, uma imagem que se havia perdido algures. Meses depois, a realidade vem mostrar que o panorama não é melhor do que há tempos atrás, tendo inclusive piorado em determinados aspectos. A SIC vem perdendo em cada vez mais dias o segundo lugar para a RTP, deixando a TVI confortavelmente isolada no comando. As apostas de Penim revelaram-se desiguais: por um lado, o concurso Pegar ou Largar, apresentado por Rui Unas (uma das ‘estrelas’ de Penim) ficou muito aquém das expectativas. Como resultado, saiu da grelha de programação mais cedo que o inicialmente previsto. Contacto, o programa dos inícios de tarde, é outro em relação ao qual as expectativas foram goradas. Rita Ferro, Nuno Graciano e Cláudia Semedo são manifestamente insuficientes para deter um furacão chamado A Escrava Isaura (RTP), líder absoluto no horário. O Programa da Manhã, conduzido por Pedro Moutinho, vai pelo mesmo caminho. Mas nem tudo são espinhos: no outro prato da balança, encontramos Floribella, novela juvenil baseada num original argentino. Assente numa temática romântica e com muita música e cor à mistura, a novela, feita para rivalizar com Morangos com Açúcar (TVI), consegue ter uma audiência diária na ordem do milhão de espectadores. Nem mesmo o contra-ataque de Moniz, colocando um episódio dos Morangos logo a seguir ao Jornal Nacional (concorrência directa com a novela da SIC), conseguiu abalar a posição alcançada por Floribella. Outro ponto a favor de Penim parece ser a série Sete Vidas. Original espanhol, o formato tem tido momentos agradáveis além de contar com um elenco que consegue divertir, sobretudo o óptimo Jorge Mourato. A questão do Herman SIC é outra: Penim exigiu um formato mais familiar e menos ‘maiores de 18’ ao programa. Os resultados vêm provar que estava certo: o Herman SIC está muito melhor ao não procurar abeirar-se de conteúdos erótico-pornograficos. O programa conseguiu inclusive superar o concorrente Circo das Celebridades (TVI) aquando da comemoração do aniversário de Herman José. Todavia, no cômputo geral a SIC tem vindo a perder audiência. No fulcral horário do prime-time, a SIC perdeu o fulgor de outros tempos, andando agora à procura da capacidade concorrencial que um dia deteve. Horários em que a SIC apostou forte, tem-se revelado uma desilusão; a RTP vai ameaçando cada vez mais a segunda posição; a TVI não parece querer permitir tão cedo que alguém se aproxime da liderança. É esta a realidade com que a estação de Carnaxide e Francisco Penim tem de lidar, ao mesmo tempo que vão caminhando na direcção (espera-se) de um porto seguro. Ou será antes um oásis?...

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O espectáculo da morte
O falecimento do jovem actor Francisco Adam na madrugada de Domingo despoletou todo um conjunto de acções e manifestações sintomáticas do panorama mediático actual e dos mecanismos a este inerentes. O "Dino" dos Morangos com Açúcar viu-se, primeiramente, projectado - em função do seu papel na telenovela-fenómeno entre os jovens - para todos os blocos noticiosos dos canais generalistas. Nada de novo. De seguida, a TVI - produtora da novela - toma a si, sem surpresas, o acontecimento: abre o Jornal Nacional com a notícia, apresenta durante os intervalos um grafismo com a data de nascimento e morte do actor, coloca um pequeno laço de cor preta num canto do ecrã durante a exibição da novela. Espaço agora aos lugares comuns: "actor com futuro promissor", "alegre", "de bem com a vida", "simpático" e outros que tais. As declarações recolhidas acabam invariavelmente por cair nestes "estereótipos linguisticos". À parte de uma certa banalidade que estas expressões possam indicar, não há como lamentar a perda de uma jovem vida, independentemente do seu valor ou apetências. A morte é sempre trágica, mesmo quando aguardada, em maior ou menor grau. O que de particular (ou nem tanto...) tem este caso é a forma como a ficção se apossa da realidade, transformando-se nesta última. Uma verdadeira "metamorfose mediática". Francisco Adam já não é o próprio. Adam é o "Dino" dos Morangos, uma espécie de ídolo dos mais jovens, que se divertem com a forma como o personagem aborda as babes, entre outras particularidades. Adam é um autêntico individuo-personagem que só se faz valer por meio da representação de uma ficção, com todos os estereótipos que esta tem para oferecer aos espectadores. Consciente do facto, a TVI, limita-se a seguir a cartilha: monta o palco, coloca os actores nas marcas, cenários, luzes e... acção! São as ligações em directo ao velório, a transmissão do funeral, a entrevista ao Sr. Manel e à D. Arminda, a presença dos actores dos Morangos, a reacção dos jovens à presença dos seus pretensos ídolos. É um enorme "concertante mediático": os pais, os colegas e os Srs. Antónios desta vida como solistas e os demais como coro deste final de acto. O acto acaba mas o palco continua lá. Comenta-se: "olha a Salomé", "tá ali o Topê", a cena é de novela. A realidade encontra-se agrilhoada; ela está ali está mas envolvida por um espesso manto ficcional. O "Dino" até continua a aparecer nos Morangos. É agora um simbolo, mais mediatizado do que nunca; a morte sublimada por um imenso aparato por parte de televisões, rádios, revistas, blogs na Internet. "Custa vê-lo na televisão", afirmava uma fã. É a exaltação da piedade e de toda uma simbologia que toca o público e o move à participação no espectáculo de glorificação do seu ídolo.