O espectáculo da morte
O falecimento do jovem actor Francisco Adam na madrugada de Domingo despoletou todo um conjunto de acções e manifestações sintomáticas do panorama mediático actual e dos mecanismos a este inerentes. O "Dino" dos Morangos com Açúcar viu-se, primeiramente, projectado - em função do seu papel na telenovela-fenómeno entre os jovens - para todos os blocos noticiosos dos canais generalistas. Nada de novo. De seguida, a TVI - produtora da novela - toma a si, sem surpresas, o acontecimento: abre o Jornal Nacional com a notícia, apresenta durante os intervalos um grafismo com a data de nascimento e morte do actor, coloca um pequeno laço de cor preta num canto do ecrã durante a exibição da novela. Espaço agora aos lugares comuns: "actor com futuro promissor", "alegre", "de bem com a vida", "simpático" e outros que tais. As declarações recolhidas acabam invariavelmente por cair nestes "estereótipos linguisticos". À parte de uma certa banalidade que estas expressões possam indicar, não há como lamentar a perda de uma jovem vida, independentemente do seu valor ou apetências. A morte é sempre trágica, mesmo quando aguardada, em maior ou menor grau. O que de particular (ou nem tanto...) tem este caso é a forma como a ficção se apossa da realidade, transformando-se nesta última. Uma verdadeira "metamorfose mediática". Francisco Adam já não é o próprio. Adam é o "Dino" dos Morangos, uma espécie de ídolo dos mais jovens, que se divertem com a forma como o personagem aborda as babes, entre outras particularidades. Adam é um autêntico individuo-personagem que só se faz valer por meio da representação de uma ficção, com todos os estereótipos que esta tem para oferecer aos espectadores. Consciente do facto, a TVI, limita-se a seguir a cartilha: monta o palco, coloca os actores nas marcas, cenários, luzes e... acção! São as ligações em directo ao velório, a transmissão do funeral, a entrevista ao Sr. Manel e à D. Arminda, a presença dos actores dos Morangos, a reacção dos jovens à presença dos seus pretensos ídolos. É um enorme "concertante mediático": os pais, os colegas e os Srs. Antónios desta vida como solistas e os demais como coro deste final de acto. O acto acaba mas o palco continua lá. Comenta-se: "olha a Salomé", "tá ali o Topê", a cena é de novela. A realidade encontra-se agrilhoada; ela está ali está mas envolvida por um espesso manto ficcional. O "Dino" até continua a aparecer nos Morangos. É agora um simbolo, mais mediatizado do que nunca; a morte sublimada por um imenso aparato por parte de televisões, rádios, revistas, blogs na Internet. "Custa vê-lo na televisão", afirmava uma fã. É a exaltação da piedade e de toda uma simbologia que toca o público e o move à participação no espectáculo de glorificação do seu ídolo.
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