
Decisões de Verão
A chegada da época de Verão é sempre altura de mudanças nas grelhas televisivas. Periodo tradicionalmente marcado por um decréscimo do número de espectadores, a aposta das estações televisivas recai, frequentemente, sobre reposições e, em menor grau, sobre novos programas e séries. Este ano, a chegada do Verão já se está a fazer sentir. Por um lado, temos a sobre-exposição da Selecção Nacional de futebol, por outro, qual ponte, o futuro próximo da SIC, cuja grande cartada é, sem dúvida, a transmissão do Mundial da Alemanha. A exagerada mediatização da Selecção continua a surpreender embora não seja surpresa nenhuma. Num país que continua a ir beber ao poluto cálice da bola, chega a parecer mais lógico gerar espanto quem precisamente continua a criticar todo este circo montado. A verdade é que, embriagados ou não, a Selecção tem tido direito a tudo e mais alguma coisa: novos complexos desportivos, recepções com as altas (e de estatura menor...) figuras de Estado, manifestações populares e, obviamente, cobertura mediática. Neste último particular, as televisões tem sido irrepreensíveis: magazines diários dedicados ao mundial, empolação dos 'passeios' da Selecção em todos os blocos noticiosos, criação de hinos para a cobertura do Mundial, apresentação - qual selecção - das equipas de jornalistas e comentadores em serviço na competição. No fundo, é a tentativa de chamar o público à fidelização nas respectivas emissões, tendo por base a identificação do português pela sua Selecção, numa estratégia de objectivo comum: todos em juntos em esforço e dedicação até à vitória final (para ambos os lados). De entre a televisão generalista, o caso da SIC é inquestionavelmente o mais flagrante. Concretamente, a emissão A Mais Bela Bandeira do Mundo conseguiu, apelando ao patriotismo e ao público feminino, criar um ambiente de histerismo colectivo que o canal de Carnaxide agradeceu, podendo assim larçar de vez a sua estratégia em relação ao Mundial da Alemanha. Como se veio a verificar, essa 'manisfestação' foi o prólogo de tudo o que se seguiu: a onda de reverência à Selecção, alicerçada em promessas, esperenças e desejos, ou seja, um vazio de ar que vai oxigenando todas estas peripécias até ao jogo inaugural, pelo menos. Com a SIC passa-se o mesmo. O primeiro grande impulso para sair da crise é precisamente este Mundial e esta Selecção que de promessa em promessa, de esperança em esperança, vai passeando pelo país envolvendo o povo, dando-lhe de beber o tal cálice que o entretem e alheia às preocupações diárias. Pão e circo, pura e simplesmente. Em Carnaxide, o próximo mês pode ser decisivo para uma viragem. Para tanto, os olhares colocam-se sobre a prestação da equipa de todos nós. O insucesso será a frustração de todo um povo... e de um canal também.
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