quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 14

Fragoso e as batatas

É sempre difícil para um director de programas suceder a um bom director de programas. Que o diga José Fragoso, o novo responsável pela programação da RTP. Fazer o que Nuno Santos fez, ou seja, tentar situar o canal público no âmbito do tão discutido "serviço público" e com resultados, não está a ser fácil. Sinceramente, não estava à espera que o fosse. Calçar as sandálias do "pescador" Nuno Santos é uma tarefa que, até ao momento, tem-se revelado pouco lograda. A RTP que com Santos havia conseguído ultrapassar a SIC pela primeira vez em mais de uma década, voltou à antiga posição, fruto também do trabalho de Nuno Santos em Carnaxide. Em termos de estilo, o próprio José Fragoso parece-me ainda pouco dinâmico e com algum défice de conhecimento dos dossiers da estação pública. Hèlas, resta-nos aguardar o que o futuro reserva.
Por falar em futuro, a RTP finalmente anunciou a estreia do remake da novela Vila Faia para 7 de Março, uma sexta-feira. Depois de anunciada por diversas vezes, a aposta lançada pela direcção anterior recebe assim luz verde para ser emitida. Eis senão quando, na sessão de apresentação do formato, ficamos a saber que Vila Faia será transmitida somente aos fins-de-semana no período imediatamente anterior ao Telejornal (18h30-20h). No mínimo estranho e surpreendente (sobretudo para actores, autores e técnicos). Argumenta José Fragoso que se trata de um horário "que toda a gente pode ver”. E diz mais: “É um horário alternativo ao que é a noite dos canais de televisão. Esta decisão não foi tomada de um momento para o outro, foi muito pensada." O director de programas da RTP esclareceu ainda que era seu intento que os formatos da estação estivessem "disponíveis nos horários em que podem ser alternativos ao que se faz nos outros canais”. Eu compreendo que se procurem alternativas ao excesso de horários ocupados por telenovelas nas grelhas de programação, contudo estas devem ser viáveis. Um produto como este necessita de um horário de grande exposição. Não me parece razoável, "esconder" uma das grandes apostas de 2008 nas tardes de fim-de-semana.
O que Fragoso se propõe é imitar o comportamento de Nuno Santos relativamente à novela Resistirei. A diferença é que as audiências dão razão ao responsável da SIC e o produto da RTP ainda nem sequer estreou. Posso estar equivocado, mas julgo estar perante uma condenação à partida.
Neste momento, fico aqui a pensar se Simone de Oliveira não terá tido razão ao mandar o director de programas "cozer batatas".

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 13

Entrevistadores e entrevistados

Que o primeiro-ministro é um entrevistado difícil não parecem restar dúvidas. Não porque não responda às questões que lhe são colocadas mas pelo carácter incisivo que confere às suas intervenções, não permitindo a formulação de novas perguntas pelos entrevistadores, sem que primeiramente tenha concluído o seu raciocínio. Salvaguardadas as devidas diferenças, é como se tratasse de uma torrente de lava que queima tudo o que se interpõe no seu caminho. Não se julgue que se trata de uma critica a José Sócrates, antes pelo contrário. É bastante mais desafiador para um jornalista ter um entrevistado que o obrigue a "puxar dos galões" do que um, digamos assim, mais convencional. Contudo, para enfrentar interlocutores deste tipo é necessário estar pelo menos ao mesmo nível, percebendo qual a estratégia do entrevistado na ocasião e desmontando-a, posteriormente, com o evoluir da conversa.
Eis que a SIC falha neste grande pormenor. No espaço Sócrates: Três Anos de Governo, exibido ontem após o Jornal da Noite, Ricardo Costa, do canal de Carnaxide, e Nicolau Santos, director adjunto do Expresso ignoraram isto e acabaram a interromper constantemente o primeiro-ministro, dando ao espectador uma impressão desagradável, mesmo agressiva (sobretudo Ricardo Costa). Sócrates, com a lição bem estudada, não teve de se esforçar muito para dizer o que quis, no ritmo que bem entendeu. Com isto, o tempo foi passando e certos temas tiveram que ser tratados à pressa. O mérito de uns é o demérito de outros, neste caso, de Ricardo Costa e Nicolau Santos, que demonstraram estar muitos furos abaixo daquilo que se exigia para uma entrevista deste grau. Bem diferente do sucedido com José Alberto Carvalho e Judite de Sousa aquando da primeira grande entrevista de Sócrates enquanto chefe de governo (RTP).

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 12

Momentos de tensão

Devo confessar que, há cerca de duas semanas, a invasão da favela da Portelinha na novela Duas Caras (respectivamente episódios 82, 83 e 84) exibida pela SIC deixou-me empolgado. Diversas comparações tem sido feitas entre este acontecimento e similares sucedidos na novela Vidas Opostas, transmitida até Agosto de 2007 pela Rede Record, disponível entre nós no cabo. Convém aqui ressalvar que acompanhei poucos episódios da história de Marcílio Morais, embora saiba não só que a favela do Torto foi invadida por diversas vezes, como inclusive assisti à primeira invasão.
Uma vez conhecidos os dois casos, posso, de uma forma mais informada, me debruçar sobre o assunto. As diferenças, sem dúvida, existem. Em Vidas Opostas o episódio revestiu-se de tons mais crus, com pouca ou nenhuma maquilhagem. Um claro apelo a um certo "realismo". Ao facto terá certamente ajudado o emprego de cenário um natural, ou seja, de uma verdadeira favela. Em termos dramatúrgicos, as próprias personagens encontravam-se numa luta para expulsar os traficantes que ali se instalavam. Uma trama perfeitamente verosímil. Na Globo, a sequência da invasão foi toda mais estilizada. Não só a Portelinha era um exemplo de virtudes, como afinal a situação era novidade para aqueles lados. A própria favela é um grande "comunidade cenográfica" erigida nos estúdios do Projac. Não faltou igualmente uma certa dose de clichés , como a invasão ocorrer em pleno ambiente festivo, a dama da alta sociedade que se vê envolta em toda a tragédia ou o vilão que, no conforto da sua mansão, acompanha à distância o evoluir do ataque por si encomendado. Tudo clássicas estratégias para enfatizar o incontornável conflito entre o Bem e o Mal, o correcto e o errado, o justo e o injusto.
Embora estes aspectos pudessem diminuir o impacto da cena quando comparada à concorrência, a verdade é que sequências deste tipo dependem sobretudo da capacidade de criar um ambiente de tensão que estimule o espectador, gerando um estado de ansiedade que o acompanhe a cada nova cena. Neste particular, Duas Caras foi claramente bem sucedida. Podemos sempre discutir se todos os aspectos da invasão foram apresentados de forma credível, se o "exército" do traficante Lobato (óptimo Paulo César Pereio) não terá chegado de forma relativamente fácil ao centro da favela ou se era mesmo necessário exibir uma moradora a agredir um dos invasores com um utensílio de cozinha. A verdade é que a tensão instalada suplantou tudo isso, encimada pela inusitada banda sonora (valsa No Belo Danúbio Azul de Johann Strauss Filho) e sobretudo pela potencialmente antológica cena da bazooka empregue pelo líder Juvenal Antena (grande António Fagundes) contra os traficantes. Contudo, o maior crédito vai para o elenco, responsável por situações de grande impacto dramático como a morte da filha do pastor evangélico nos braços da socialite Gioconda (extraordinária Marília Pêra), perfeitamente de acordo com o tom conferido aos episódios.
Para um "noveleiro" confesso como eu, é quase que nostálgico verificar que a teledramaturgia que se produz actualmente ainda consegue, esporadicamente, criar aqueles grandes momentos de tensão que, amiúde, associamos às novelas do passado. É sinal que ainda existem bons autores como Aguinaldo Silva (autor de Duas Caras) e produtos com qualidades.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 11

Um susto de repetições

A expressão é minha, pelo menos assim o creio, e reflecte a já crónica falta de originalidade na programação de sessões de cinema na televisão portuguesa. Ainda onde tive prova disso. Pela segunda vez num curto espaço de tempo (e terceira num espaço temporal não tão alargado quanto isso), a RTP transmitiu na sua segunda sessão de ontem à noite, cerca da 1h40, a película "Scary Movie 3", na tradução portuguesa algo como "Um Susto de Filme". Apesar de entreter para quem sente necessidade de umas quantas gargalhadas vácuas (eu, por vezes, sinto), a profundidade do argumento não vai além deste nível tão superficial, se tanto. Daí que se coloque a questão das constantes repetições de filmes mais que vistos mas sem justificativa para tal. Se se tratasse da sessão dupla das noites de sábado na RTP2 a questão seria outra. Enquanto isso, a consulta da programação semanal toma quase que a forma de uma prece, na esperança que os responsáveis tenham sido fulminados pela centelha da criatividade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

tvRAMA - 10

Popularesco

O termo "popularesco" não tem, ou melhor, não deve sempre ter uma conotação negativa. Pelo menos à partida. Inserido na grelha de uma estação com uma lógica virada para as classes mais populares, As Tardes da Júlia (TVI) é um formato que desde a cor dos décors até ao estilo da apresentadora cumpre a sua missão de cativar um determinado tipo público, público esse que, pelos vistos, é bastante numeroso não fosse o canal de Queluz líder de audiências há vários anos.
O tema da edição de hoje era o Regicídio, acontecimento do qual se comemora um século. Além de um historiador, os convidados eram João Soares, republicano, e o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles, monárquico convicto. Enquanto discorriam sobre a conjuntura do país de então ou as diferenças entre regimes monárquicos e republicanos, levantando algumas hipóteses académicas, (tudo com as doses certas de seriedade e bom humor), esperava-se a "colherada" de Júlia Pinheiro. A dita chegou aquando do relato do momento do assassinato dos monarcas. Não esperou e imediatamente começou a imitar o gesto de D. Amélia que, munida com um ramo de flores, atacava um dos regicidas, gritando "Infames, infames!". O público riu. Momentos depois, foi a vez de comentar uma imagem da família real, dizendo que o rei ainda não estava "gordinho" na ocasião. A assistência voltou a rir. Quem não conhecesse a linha estilística do programa até poderia achar ridículo e desfazado do contexto propiciado pelos convidados. Para quem está familiarizado com a apresentadora e o programa, nada mais natural e... apropriado.

tvRAMA - 9

Sem contacto

Lançado há cerca de dois anos, o programa Contacto (SIC) constituiu-se como uma das "medidas" da administração Penim. Apresentado por duas figuras da casa, Rita Ferro Rodrigues e Nuno Graciano, o formato surgiu com a missão de conquistar um horário até então liderado pelo Portugal No Coração (RTP), já em momento de desgaste. Elaborado com as mesmas matérias-primas do concorrente e adicionados alguns condimentos à la Fátima, o programa logrou impor-se nas audiências, alcançando a preferência do público. Isto foi há dois anos. Entretanto, a TVI, não querendo perder o barco do entretenimento vespertino, voltou a convocar a incontornável Júlia Pinheiro e estreou, nos primeiros meses de 2007, o As Tardes da Júlia, em concorrência directa com os demais. Também neste meio termo, o Portugal no Coração passou por um processo de renovação, contando inclusive com uma nova dupla de apresentadores (João Baião e Tânia Ribas de Oliveira).
Chegados ao presente dia, verificamos que o Contacto não só foi relegado para a terceira posição como parece ter dificuldade em reter os espectadores que a SIC vai fidelizando com a reexibição da ficção brasileira Terra Nostra. Se porventura não tão evidente à partida, a verdade é que o formato deixa a desejar. Apostando num estilo híbrido a meio caminho entre a linha adoptada pelos concorrentes RTP e TVI, o Contacto cai num certo artificialismo, num produto difícil de classificar quando comparado a estes. Se, por um lado, tem havido bons momentos com convidados de valia (recordo-me de Artur Agostinho), por outro não se percebeu, a certa altura, a insistência na apresentação dos chamados "casos da vida", com direito a muito choro e expressões de sofrimento. Isto para não falar da inenarrável rubrica "Calor da Tarde", trocadilho de mau gosto com um "célebre" bar. Pseudo figuras públicas, quais comentadores credenciados, discorrem durante cerca de uma hora, sobre as maiores banalidades de um Jet-7 português já de si banal e de pedigree duvidoso. Tudo isto abordado com a maior das seriedades, como se de um assunto de importância nacional se tratasse. Talvez este seja o maior pecado do programa, conceder uma importante fatia do programa a este tipo de rubrica, passando logo em seguida para uma conversa com figuras como Artur Agostinho, Simone de Oliveira ou Eduardo Sá. É passar do "8 para o 80" e isso torna-se difícil de digerir.