quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

tvRAMA - 5

O fascínio do fogo
Desde segunda-feira está aberta a época de incêndios em Portugal. A propósito do facto, julgo que ninguém se deverá ter esquecido da celeuma causada pela cobertura mediática dos incêndios que assolaram o país no ano passado. Uma celeuma resultante da tendência para a exaltação da espectacularidade das situações, apontada por críticos e espectadores ao trabalho dos meios de comunicação social, sobretudo a televisão e os jornais. Um ano depois, a RTP surge com a ideia de promoção da auto-regulação dos vários media em relação ao tratamento do assunto dos incêndios. A RTP parte para este debate com a intenção de definir claramente um rumo a dar à cobertura informativa do tema, uma orientação que seja transversal a todos os meios de comunicação social. No fundo, uma uniformização da forma de abordagem da questão. As reacções de SIC e TVI, não surpreendentemente, foram contrárias à intenção do canal público. Argumentam as estações privadas não estarem dispostas a "esconder os incêndios" e a "pintar um mundo cor-de-rosa". Concluem com uma das grandes verdades jornalisticas: o direito dos telespectadores de serem informados. Se a conclusão é inabalável, as premissas são, no mínimo, discutíveis. Mesmo propositadamente, julgo ser dificil branquear uma situação cuja evidência não é decerto fruto da espectacularidade de uma imagem num jornal ou do choque causado por uma reportagem televisiva. Todos quantos se informam e são informados tem noção dos vários factores que contribuiram e contribuem para o actual estado da floresta portuguesa e do barril de pólvora que ela representa. No entanto, a consciência disso deve brotar do público e não ser induzida pelo melhor ângulo de uma imagem de um grande incêndio ou pelas imagens captadas no momento em que uma habitação é atacada pelas chamas. Parece ingénuo mas, no entanto, não me parece lícito que se jogue com a delicadeza de um assunto que lida tanto com a vida humana como com o drama e a piedade que ela exalta. O que assistimos no ano transacto foi à montagem de um grande espectáculo em volta das chamas e do fogo. Puxou-se o drama aos limites, ultrapassaram-se barreiras para trazer o sofrimento do cidadão comum ao centro do palco, criou-se uma aura de desgraça que, a dada altura, parecia assemelhar-se muito pouco ao jornalismo. Não tenhamos dúvidas, o fogo fascina, enebria, para o melhor ou para o pior. A prova já foi dada. Mas será tal benéfico para o direito de informar e esclarecer? Não me parece.

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